Acervo. 2009
13 segunda-feira set 2010
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16 segunda-feira ago 2010
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A Gosto da Fotografia – 2006 . Foto Arte-Brasília – 2007
GIOVANA DANTAS
“Apartem também das Igrejas aquellas músicas, onde assim no órgão, como no canto se mistura alguma cousa impura, e lasciva”.
Trecho do documento do Concílio de Trento (1864)
A Festa de Santa Bárbara
No dia quatro de dezembro, na cidade de Salvador, rende-se homenagem a Santa Bárbara. Nesta data festiva, envolvidos num clima de deslumbramento, presenciamos o coroamento de uma construção coletiva que se desenvolve ao longo do ano. Na verdade, o dia da festa revela o trabalho e a dedicação das pessoas que se empenham para a sua realização. Todo o resultado dos preparativos, que se desdobram nas igrejas, nos terreiros e nas residências dos devotos, invade a rua e se mostra na produção das roupas vermelhas, nas comidas, nos cânticos, na cenografia dos andores, dos altares das casas e de toda a produção material e imaterial que passa a compor, neste dia, a paisagem do Centro Histórico de Salvador.
Considero a Festa de Santa Bárbara uma das mais expressivas comemorações da cultura popular que integra o calendário festivo da cidade. Falo da riqueza da música, das gestualidades e das formas de sociabilidade que esta festa proporciona. Ao se cultuar Santa Bárbara, também se rende homenagem a Iansã (sincretismo afro-católico). Esta convivência pacífica da fé representa um exemplo de paz para o mundo.
Antonio Risério (Uma História da Cidade da Bahia, 2004) aponta a pré-disposição festiva do baiano ao descrever o comportamento do povo na Cidade da Bahia, no século XVIII, que já evidencia uma “vontade de festa”. A natureza comemorativa da vida baiana nunca se deixou conter dentro dos limites das festas oficiais patrocinadas pelo poder laico ou religioso. Na verdade, as festas oficiais primaram sempre por uma espécie de transbordamento, com a massa da população prolongando a celebração pública organizada pela elite dirigente em espaços alternativos de comemoração em que ela podia se entregar, sem maiores inibições, às manifestações coletivas que continham seu próprio conjunto de falas, de cantos, de danças e de embriaguez. Hoje não poderia ser diferente, pois a natureza festiva da vida baiana continua mantendo suas influências barrocas, de fé e erotismo, evidenciando no seio mestiço da religião o jogo do prazer.
O cortejo de Santa Bárbara sai da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, edificação do século XVII, num clima sagrado, em que o pão e o vinho são bentos juntamente com os acarajés. Após a missa, cuja liturgia é regida ao toque de atabaques, a procissão deixa a igreja, sobe a ladeira do Pelourinho até o Terreiro de Jesus, passa pela Praça Municipal e desce a Ladeira da Praça; faz uma parada no Corpo de Bombeiros, que reverencia Santa Bárbara como padroeira; vai ocupando, no ritmo dos cânticos, a Baixa dos Sapateiros, onde os comerciantes enfeitam suas vitrines com peças de roupas vermelhas e brancas. Passa pelo Mercado de São Miguel e, mais adiante, parte dos devotos vai se aliar às manifestações mundanas do Mercado dos Arcos de Santa Bárbara, enquanto outra parte da procissão retorna à Igreja Rosário dos Pretos.
No mercado, em meio a muito samba, arrocha e cachaça, um lindo altar, que abriga imagens de Iansã e de Santa Bárbara, convoca os fiéis à oração. Logo acima, no primeiro andar, um caruru é servido para quem vier. Que venham todos!
A Fotografia Híbrida
Apresento, no A Gosto da Fotografia de 2006, uma série de imagens da Festa de Santa Bárbara. Nestas imagens, os flagrantes da festa sofrem uma pós-produção em que fotografia e pintura se misturam. Os limites e as interações da pintura com a fotografia, dentro de uma perspectiva do hibridismo presente na arte contemporânea, ocupam, cada vez mais, um território de construções intensas. A interface resultante desta aproximação torna-se um campo de experimentações vasto, de limites tênues e de alto potencial construtivo. São várias as maneiras pelas quais se dão estas interpenetrações, que tanto remetem ao século XIX, por conta da natureza pictórica da fotografia deste período, como nos direciona para as atuais experimentações que não abrem mão dos mais inusitados materiais para compor esta interface. Um exemplo desta operação, nas produções contemporâneas, pode ser quase “experimentado” no trabalho de Vik Muniz. Além de materiais inorgânicos retirados da vida cotidiana, ele utiliza matérias comestíveis como açúcar, chocolate, pimenta, para redesenhar a imagem fotografada.
As operações que possibilitam a construção destas imagens podem conter desde a tecnologia digital até processos mais rudimentares como variações da fotografia pinhole (técnica artesanal). Ações pré-fotográficas e pós-fotográficas também participam deste arsenal de procedimentos que distanciam a fotografia da sua função icônica, de registro direto. Aqui, a captura do real é apenas um pretexto para novos desvios que se multiplicam de maneira multidirecional.
As fotos apresentadas na exposição A Tempestade de Bárbara, realizada na Casa do Benin, durante o A Gosto da Fotografia (2006), não pretendem documentar fielmente a Festa de Santa Bárbara, mas criar um efeito de distanciamento que nos carrega, a partir da fotografia, para infinitas veredas de possibilidades de reconstrução simbólica deste evento. Qualquer técnica ou linguagem que se mostre híbrida já possui expostas em si as condições de sua construção.
A variedade de materiais e de procedimentos que compõem estas imagens não só representa a metáfora da própria constituição sincrética da festa, mas também se apresenta como uma reelaboração visual difusa, carregada de excessos, que nos remete às oscilações de um mundo flutuante tal qual o mundo barroco. O real está miscigenado com as práticas de representação e seus discursos, e não há como entendê-lo fora de seus dispositivos. A experiência da arte contemporânea se mostra absolutamente impura. O contexto é familiar – a Festa. Mas o deslocamento aplicado à fotografia que registrou cada cena, através da superposição de procedimentos pictóricos e demais operações pós-fotográficas, que misturam pintura, gravura e digitalização à superfície da imagem revelada, vai redirecionar o olhar do espectador. A idéia contida no conjunto de imagens que compõem A Tempestade de Bárbara é de potencializar uma interface experimental entre fotografia e pintura, livre, híbrida, tal qual a Festa de Santa Bárbara.
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Giovana Dantas, artista plástica, explora fotografia, vídeo, objetos, instalações. Trabalha com materiais orgânicos, como couro de porco, retirado da Feira de S. Joaquim, e também materiais do mar, resultado da sua passagem pela Residência Artística, Instituto Sacatar, Ilha de Itaparica. Principais exposições: Imanências do Mar – Museu de Arte Moderna – Salvador-BA (2008); A Tempestade de Bárbara – Teatro Nacional (Foto Arte) – Brasília-DF (2007) e Casa do Benin (A Gosto da Fotografia) – Salvador-BA (2006); Memória da Pele – Caixa Cultural – Brasília-DF (2006); Escarificações – Caixa Cultural – São Paulo-SP (2005); Feira Livre, Instalações Culturais – Caixa Cultural – Salvador-BA (2003); Escarificações – Solar do Barão – Curitiba-PR (2002). Graduada em Artes Visuais e Doutora em Artes Cênicas pela UFBA. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnológica da Bahia.