Alejandra Hernández Muñoz
Professora de Historia da Arte da EBA/UFBA . Publicado em Jornal A Tarde de 14 de agosto de 2010.
“Eu queria ter nascido aqui na Bahia”. Esse é o desejo impossível de Thomaz Farkas que, numa tardinha chuvosa de terça-feira, deixou uma pequena platéia emocionada e de olhos marejados. É uma das melhores declarações de amor a esta terra. E na entrevista em vídeo ainda ele reforça: “Eu queria ser o Batatinha!”. É que no meio da brutalidade dominante e do pragmatismo cotidianos aos quais a Bahia está exposta, pensamentos como esses ressumem a grandeza deste lugar que, paradoxalmente, parece ser um valor para poucos daqui e muitos de fora.
Felizmente, ainda há iniciativas do bem (e baianíssimas!) que jogam luz no mar das trevas e delicadeza no meio das burrices e desmandos que povoam a crônica diária da nossa cidade. Uma dessas iniciativas é o Festival A Gosto da Fotografia que chegou a sua sexta edição motivando entre os freqüentadores aquela expressão recorrente quando encontramos uma criança conhecida que há tempo não víamos: “como você está grande!”… É que o A Gosto, para os íntimos, não apenas cresceu como já tem uma personalidade própria que merece ser destacada em seus méritos e avaliada em suas potencialidades.
O Festival é realizado desde 2004 pelo Instituto Casa da Photographia de Salvador, sob direção de Marcelo Reis, conquistando parcerias e apoios importantes à cada edição. Começou como homenagem ao Dia Mundial da Fotografia, 19 de agosto, com duplo objetivo de divulgar a arte fotográfica de autores reconhecidos e iniciantes, e de formar e ampliar o público apreciador da fotografia como estímulo e garantia à sua continua valorização. Desde 2008, graças à parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o projeto conta com a curadoria de Diógenes Moura e vem recebendo a participação crescente de outras instituições e colaboradores. Nesta edição de 2010, o A Gosto é patrocinado pela Oi e a Secretaria de Cultura do Estado, através do programa Fazcultura, contemplado pelo Edital de Apoio a Festivais de Fotografia da FUNARTE e com o apoio cultural da Oi Futuro.
CONTRIBUIÇÕES DO FESTIVAL
Desde a primeira edição, os principais espaços expositivos de Salvador recebem mostras diversas com homenagens, retrospectivas, resgate de trajetórias, recortes temáticos, produções recentes individuais e coletivas. As exposições são acompanhadas de atividades tais como seminários, palestras e debates com fotógrafos e pesquisadores, leituras de portfolios, oficinas e cursos de fotografia, projeções de filmes e mostras audiovisuais. Assim, quem acompanha o projeto ao longo destes sete anos, criou um hábito salutar de apreciação da fotografia a partir do Festival. Mas o que representa o A Gosto além da visibilidade das exposições?
Em primeiro lugar, como reconheceu Milton Guran no sábado passado, o Festival tem a importante tarefa dupla de constituir, na Bahia, um foro de discussão e exposição da fotografia nacional e internacional, e de promover, no Brasil, a divulgação da fotografia baiana. A sua relevância motivou que o A Gosto fosse inserido na Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil, estabelecendo canais de comunicação entre diversas esferas de Governo e os setores de promoção, produção e difusão da fotografia brasileira.
Em segundo lugar, o refinamento das mostras individuais e coletivas do Festival vem consolidando parâmetros de expografia e eixos de debate da cultura visual na Bahia, atingindo elevado patamar de credibilidade e respeitabilidade no meio artístico-cultural local, regional e nacional. Além de consolidar um circuito de referência próprio de exposições, cada edição do A Gosto vem incentivando a configuração de outro circuito paralelo de mostras relacionadas à linguagem fotográfica, ou seja, um corolário do que acontece com as bienais e grandes mostras periódicas de arte. Neste ano, por coincidência fortuita, as aberturas do A Gosto foram precedidas pelo sucesso do Seminário de Cinema e pela retrospectiva de Marc Riboud na Aliança Francesa, reforçando o diálogo entre as linguagens irmãs do cinema e da fotografia.
Em terceiro lugar, a qualidade reflexiva e a proposta educativa do A Gosto tem contribuído à formação de uma sensibilidade artística no público leigo e ao alargamento das referências sobre a arte fotográfica entre os iniciados. As mostras recebem numerosas visitas de escolas de ensino médio porém também são objeto de trabalho e discussão de cursos de artes e fotografia de ensino superior de Salvador. Entretanto, o projeto tem um desdobramento menos visível porém importantíssimo que é o trabalho das oficinas com crianças e adolescentes de comunidades com escasso atendimento cultural-educativo. Em 2004, por exemplo, 20 jovens da comunidade Vila América foram iniciados na arte fotográfica e exploraram a técnica Pinhole graças ao projeto “Um olhar sobre a Vila América”. Em 2006, além de Salvador foi possível ampliar o raio de alcance do A Gosto levando mostras, palestras e oficinas às cidades de Feira de Santana, Cachoeira, São Fêlix e Vitória da Conquista. Em 2008, foram realizadas oficinas em Marotinho e Bom Juá. Em 2009, a Escola Pracatum, no Candeal, concentrou as ações educativas.
NO CENTRO HISTÓRICO
Nesta edição de 2010, o projeto traz sete exposições em cinco espaços diferentes. É significativo que a programação do A Gosto começou no Centro Histórico e na sede da Oi Kabum! Salvador, evidenciando o foco reflexivo e educativo do projeto e seu compromisso com a valorização cultural da cidade. Além da encenação do monólogo “Eu, quem? Um retrato em preto e branco” feito pelo curador Diógenes Moura na abertura, a Oi Kabum! acolhe duas mostras produzidas pelos jovens da escola: “Caymmi na Lata” com imagens de técnicas mistas de Pinhole, grafismo e tipografia, e “Olha aí o Pelô” com recortes e olhares sobre o patrimônio do Centro Histórico de Salvador. Outras atividades educativas para jovens acontecem na Casa-Museu Solar Santo Antônio, com oficinas de Pinhole para estudantes do GiRO – Grupo de Design Social.
Nas redondezas da Oi Kabum!, outras três mostras do Festival se articulam oportunamente com exposições em curso em espaços próximos. A religiosidade e as tradições africanas e brasileiras são o foco dos registros apresentados pelo A Gosto no Centro Cultural Solar Ferrão. A mostra “O lado de lá” traz, por primeira vez a Salvador, o extenso trabalho de Ricardo Teles realizado entre 2005 e 2010 em Angola, Benin e Congo. O conteúdo e poética dessa exposição são reforçados pelo acervo de “Panáfrica”, da Coleção de Arte Africana Cláudio Masella, no andar superior do próprio Solar Ferrão, e com a vizinha “Zeladores de Voduns e outras entidades do Benin e do Maranhão” de Márcio Vasconcelos, na Casa do Benin, a poucos metros dali.
Dois belos exercícios de memória e homenagem são apresentados pelo A Gosto no Museu da Misericórdia. De um lado, um homem, o artista Mário Cravo Neto (1947-2009), é tema dos sete retratos realizados por Sabrina Pestana, em “Sem ponto final”. De outro lado, os edifícios registrados por Ana Lúcia Mariz em “Alma secreta”, parecem ecoar o definhar das antigas construções do Centro Histórico de Salvador. Homens e construções: uma poética da decadência através de imagens captadas em escombros e ruínas de São Paulo e Bahia, verdadeiros memento mori urbanos que parecem lembrar que a duração é um valor relativo e a eternidade apenas uma utopia. Essa poética da ruína, inclusive do descaso, agora social e ambiental, encontra um contraponto interessante nas imagens de Leonardo Braga que compõem “Homogenia” no Palácio Rio Branco.
NO MAM E NO MAB
O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), com apoio do Instituto Moreira Salles, é tomado por uma grande leitura da obra de Thomaz Farkas, precursor da fotografia moderna brasileira e, até o momento, quase um desconhecido do grande público baiano. A exposição de fotografias “Thomaz Farkas – O Tempo Dissolvido”, pensada especialmente para o A Gosto, privilegia cinco núcleos, incluindo-se uma epígrafe sobre a série Salvador. Em paralelo, é apresentado o ciclo de filmes “Thomaz Farkas e a Condição Humana”, conjunto de documentários sobre o povo brasileiro que foram dirigidos, produzidos ou promovidos por Farkas, entre os anos 60 e 70, experiência que ficou conhecida como a Caravana Farkas. A programação no MAM-BA compreende também diversas mesas redondas, workshops e oficinas (mais informações em www.mam.ba.gov.br), a exemplo do ciclo de palestras “A Transparência e o Obstáculo” realizado entre 5 e 7 de agosto, com reflexões magistrais de Rosely Nakagawa, Luiz Felipe Pondé e Rubens Fernandes Junior.
Outra leitura de obra importante do A Gosto é “O Caleidoscópio e a Câmera”, no Museu de Arte da Bahia (MAB), mostra cuidadosamente elaborada sobre a trajetória de Boris Kossoy, um dos artistas e estudiosos mais renomados da fotografia nacional. Pioneiro do realismo fantástico no Brasil, Kossy passou 20 anos sem expor. O público também teve oportunidade de conversar com o fotógrafo no dia 31 de julho, dentro do programa de palestras e encontros do projeto. A proposta de Kossoy é refletir sobre o processo de construção da imagem. Para isso, próximo do MAB, contribuem outras três exposições em curso: as belas imagens de Madri pelo olhar de Fernando Manso, no Instituto Cervantes; os registros da trajetória de Tuti Minervino de autoria do próprio artista e de Márcio Lima, na Galeria ACBEU; a mostra “O Poder da Linguagem”, na Galeria do ICBA, sobre as formas de comunicação fonética no mundo captadas por fotógrafos de 46 países.
RUMOS FUTUROS
Diante do sucesso e importância do A Gosto, há questões importantes para serem trabalhadas em próximas edições. Em termos de ação regional, é importante ampliar o alcance do A Gosto a outras cidades, como foi iniciado em 2006, principalmente para estimular o intercâmbio regional com profissionais e interessados em fotografia que não podem se deslocar para Salvador. Sobre o resgate da fotografia baiana, mostras como as de Anísio Carvalho (2007) e Voltaire Fraga (2009) são contribuições inestimáveis para a memória da Bahia. Porém, há muito a se fazer em termos de desdobramentos que garantam a divulgação em larga escala desses valores e, principalmente, o incentivo à ações concretas de preservação e acessibilidade ao legado dos artistas. Trajetórias como as de Silvio Robatto e Maria Sampaio, por exemplo, merecem entrar em próximas pautas. Talvez a Casa da Photographia possa promover a constituição de um centro de referência da fotografia baiana ou similar, que concentre acervos de arte fotográfica sobre a Bahia e de fotógrafos baianos. O diálogo com acervos existentes como o Museu Tempostal e coleções fotográficas dispersas em vários centros culturais, talvez seja um primeiro passo. Para tudo isso e outras perspectivas, é fundamental começar por viabilizar apoios e patrocínios do A Gosto de modo que permitam melhorar a pré-produção do Festival e garantir seus desdobramentos após as exposições. Conforme conversa com os organizadores, os gargalos burocráticos e os entraves de liberação de recursos financeiros em tempo hábil comprometem não apenas o cronograma de montagens das exposições como tem inviabilizado o lançamento, por exemplo, de catálogos e registros, que são fundamentais para a construção da memória coletiva e a formação de referências duradouras.
Como disse recentemente Boris Kossoy a este jornal, “a partir da análise de cada imagem, cada um aciona seus repertórios”. A cada edição, o A Gosto fornece um arsenal de novas imagens para ampliar nossos repertórios e estimular nossa percepção da realidade em que vivemos. E ainda tem muito assunto pela frente: ao gosto do A Gosto, da câmara escura a Batatinha!



